D. Francisco Manuel de Melo nasceu em Lisboa
em 23 de Novembro de 1606, época da dominação filipina em Portugal.
Na sua condição de
fidalgo, ligado à mais alta nobreza, teve uma educação marcada pelo estudo
no colégio jesuíta de Santo Antão, adquirindo uma vasta cultura erudita e
prestou serviço nas armadas espanholas. Frequentou a corte madrilena, grande
centro político e cultural da península.
Tendo combatido na
Flandres ao serviço de Espanha, foi encarregado em 1640 de reprimir a revolta da
Catalunha; no entanto, nesse mesmo ano, a restauração da independência
portuguesa fê-lo cair em desgraça. Permaneceu preso durante quatro meses, por
suspeita de apoiar a independência de Portugal e libertado após conseguir
ilibar-se. Em 1641, foi encarregado de algumas missões diplomáticas
e, no mesmo ano, acaba por desertar, aproveitando a sua estadia na Flandres,
aderindo à causa da Restauração da independência, apoiando D. João IV de
Portugal, prestando-lhe apoio militar e diplomático.
Em 1644 foi preso
como cúmplice no assassínio de um criado do conde de Vila Nova, sendo tratado
com grande rigor pelo rei, apesar do empenho com que se defendeu e da
intercessão pessoal de Luís XIV de França. Teve na Torre de Belém um dos
seus locais de reclusão. Permaneceu na prisão até 1655, seguindo depois como
degredado para o Brasil (Baía), onde viveu três anos e de onde só
voltou em 1658, após a morte de D. João IV. O conde de Castelo Melhor
reabilitou-o e confiou-lhe importantes missões diplomáticas, voltando a ser uma
personagem marcante na vida académica literária e na corte nos últimos anos da
sua vida. Em 1666, ano da sua morte,
foi nomeado deputado da Junta dos Três Estados.
Escritor bilingue,
pertencente tanto à história da cultura portuguesa como espanhola, foi um
representante típico da aristocracia da época e figura cimeira do barroco
português.
A sua obra
estende-se pelos mais variados géneros - poesia, teatro, doutrina
política e militar, genealogia, biografia; foi memorialista e historiador,
servindo-lhe Tácito de principal modelo. Foi ainda crítico de costumes,
moralista,
epistológrafo, cabalista, precursor dos volumosos trabalhos de
compilação poética e de bibliografia que viriam a realizar-se no tempo de D.
João V. Tem uma extensa obra bilingue que ocupa um lugar de relevo em qualquer
das literaturas peninsulares, sendo um dos grandes prosadores da língua
portuguesa da época barroca.
Destacou-se como
animador da «Academia dos Generosos», agremiação literária
barroca.
Publicou, em vida, um total de vinte obras; outras
saíram postumamente.
Editou, já em 1628, um conjunto de
sonetos, mas a sua obra poética foi posteriormente reunida
no volume Obras Métricas (1665), cujas composições são tipicamente
barrocas, quer pelo estilo, influenciado pela obra de Góngora, quer
pela temática (destacando-se o motivo do desconcerto do mundo)
e espalham simultaneamente a tradição
renascentista e
maneirista portuguesa.
No
teatro, destaca-se o Auto do Fidalgo Aprendiz (anterior a 1646), em
parte na linha da comédia
vicentina,
sátira da fidalguia provinciana. Os seus textos de crítica
de costumes (Relógios Falantes, Escritório Avarento, Visita das
Fontes) e o Hospital das Letras, volume de crítica literária (o
primeiro que se conhece em língua portuguesa), constituem os
Apólogos Dialogais (edição póstuma de 1721, que contém o Hospital
das Letras, a primeira revisão crítica geral de autores
literários antigos e modernos que se conhece na nossa língua). D.
Francisco Manuel de Melo foi ainda autor de textos moralistas,
Carta de Guia de Casados e Obras Morales (1664)
defendendo uma tal preponderância do marido que, já na época, parece ter
escandalizado o elemento feminino. Não chegou a casar-se, embora
deixasse um filho e uma filha. Escreveu obras políticas e
panfletos polemistas (Política Militar, 1638, Aula Política),
um volume de memórias escrito na prisão (Cartas Familiares, 1664) e
uma importante obra historiográfica, que inclui cinco Epanáforas,
(1660) sobre temas da história portuguesa e História de los
Movimientos y Separación de Cataluña (1645) obra clássica da
literatura espanhola. Destacamos ainda oTratado
da Ciência Cabala.
Aristocrata cosmopolita, D. Francisco reflecte tanto o espírito
cortês e galante do seu tempo quanto o desassossego do espírito
barroco, marcado pela inquietação do desconcerto do mundo
que nele se redime, por vezes, numa dimensão religiosa.
FONTES:
Enciclopédia Universal Multimédia On-Line, Dicionário de História de Portugal
(dir. Joel Serrão), História da Literatura Portuguesa (de A.J. Saraiva e Óscar
Lopes). Para referências bibliográficas completas, contactar através de e-mail
da escola.